No dia 21 de abril, o Brasil homenageia a figura de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Mas quem foi este homem? Apelidado de Tiradentes por sua atuação como dentista prático, foi uma figura de origem humilde se comparada à elite intelectual que orquestrou a Conjuração Mineira em 1789. Nascido em 1746 na Capitania de Minas Gerais, ele foi alferes[1] da cavalaria oficial, atuou também como tropeiro e minerador. Durante um curto período, também oficiou em projetos de infraestrutura urbana no Rio de Janeiro na segunda metade do século XVIII. No entanto, Tiradentes ficou realmente conhecido por causa de sua participação na Conjuração Mineira, em 1789 – mesmo ano em que eclodia a Revolução Francesa. No Brasil, ele foi um dos muitos atores sociais a propagandear os ideais republicanos e separatistas que já circulavam no continente americano, como a Revolução Americana de 1776, que culminou na emancipação do Estados Unidos e posteriormente, a Revolução de São Domingo, no Haiti, onde negros livres e escravizados expulsaram as tropas napoleônicas do seu país, em 1791, e alguns anos depois, proclamaram a sua independência e transformaram-se em uma República.
Enquanto a maioria dos conjurados
negou sua participação diante da Coroa, Joaquim José assumiu a liderança do
movimento e foi condenado à pena capital determinada pela coroa portuguesa.
Este fim trágico e violento, ao invés de “apagá-lo” da história, o transformou em
um símbolo nacional – artistas e intelectuais do século XIX, passaram a
retrata-lo como “o homem que morreu supostamente em nome da causa republicana”,
como afirmou a historiadora Lilia Schwarcz.
O Tiradentes de Pedro Américo
Pedro Américo, artista paraibano
nascido em Areia, no Estado da paraíba, pintou esta tela quatro anos após a
Proclamação da República (1889), quando estava em Florença, na Itália. O novo
regime republicano precisava desesperadamente de heróis que unissem a nação e
que fossem opositores à monarquia recém-derrubada. Tiradentes, o único
inconfidente executado brutalmente, era o candidato perfeito. A pintura serviu
como uma peça de propaganda pedagógica para "sacralizar" a fundação
do novo Brasil. A obra de Pedro Américo é rica em detalhes e simbologias.
Começando pela aparência da personagem que propositalmente, foi retratada
semelhante a Jesus Cristo, com barba e cabelos longos – embora a tradição em
torno da pena de morte daquele período, mandasse que a barba e o cabelo do
condenado fossem raspados. A cabeça decapitada parece estar em um cadafalso que
lembra um altar. Um crucifixo também aparece na cena, como se o autor quisesse passar
a seguinte mensagem: Jesus morreu em nome dos pecados da humanidade,
Tiradentes, morreu em nome da República.
Tiradentes Esquartejado. Óleo sobre tela. Pedro Américo, 1983
O detalhe mais interessante da obra
está na forma como o corpo do Tiradentes é disposto na tela. Se observarmos
bem, veremos que o seu corpo possui uma silhueta que imita o formato do mapa
brasileiro, simbolizando que o alferes mineiro teria se sacrificado em nome do
Brasil e transformado uma tragédia individual em um “triunfo” coletivo da
República. Joaquim José da Silva Xavier foi preso, torturado e por fim,
enforcado e esquartejado em 1792, as partes do seu corpo foram espalhadas pelas
ruas de Vila Rica e no caminho entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais. A casa
onde ele habitava foi destruída e a terra onde ela estava construída foi
incendiada e depois salgada para que nada nascesse ali. Os poucos membros de
sua família foram expulsos de Minas Gerais.
André
Nascimento
Mestre em História –
UFRN, tutor presencial dos cursos de História, Letras e Educação Física no
polo UAB de Currais Novos / SEDIS-UFRN, doutorando em História pela UFRN.
[1]
Posto militar de oficial subalterno, historicamente responsável por carregar a
bandeira ou estandarte de um exército, equivalente hoje ao posto de
segundo-tenente em muitos países. O termo “alferes” é proveniente do árabe al-fāris,
que significa "cavaleiro".

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